Análises · Roraima
Roraima tem mais gente usando PIX do que moradores. A explicação está na fronteira
Levantamento com dados do Banco Central mostra 689 mil pessoas usando o PIX num estado de 637 mil habitantes. Quase toda a diferença vem de Pacaraima, na divisa com a Venezuela.
Por Alan Serra. Dados de agosto de 2026.
Em agosto de 2026, 689.664 pessoas fizeram ao menos um PIX em Roraima. O estado tem 636.707 moradores segundo o Censo 2022. São 53 mil pessoas a mais do que habitantes — uma conta que, do jeito que está, não fecha.
Não é erro de cálculo nem de carga. É um retrato de como o Banco Central organiza esse dado: cada pessoa é atribuída ao município do seu cadastro bancário, que nem sempre é onde ela mora. Em Roraima, um único município distorce a conta do estado inteiro. Sem ele, Roraima ficaria em 83,4%, o que colocaria o estado entre os três primeiros do país.
Adoção do PIX por município
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- Fizeram ao menos um PIX
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- Receberam ao menos um PIX
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- População (Censo 2022)
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Ver os números em tabela
| Mês | Fizeram PIX | % da população | Receberam PIX | % da população |
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Fonte: Banco Central do Brasil (dados abertos do PIX) e IBGE (Censo 2022). Elaboração: DATA OPEN BANK.
Pacaraima: 174 mil pessoas num município de 19 mil
Pacaraima fica na divisa com a Venezuela e é a principal passagem terrestre entre os dois países. Tem 19.305 moradores no Censo 2022. Em agosto de 2026, 174.555 pessoas fizeram um PIX com cadastro no município — nove vezes a população.
O número não apareceu de uma vez. Cresceu de forma contínua desde o primeiro mês do PIX: 6.848 pessoas em dezembro de 2020, 27.950 em dezembro de 2021, 57.821 em 2022, 90.190 em 2023, 124.622 em 2024, 157.722 em 2025 e 174.555 agora. Multiplicou por 25 em menos de seis anos.
E não são contas paradas. No mês, esses cadastros movimentaram R$ 906 milhões em 8,7 milhões de transações — cerca de R$ 5.190 por pessoa, um valor dentro do normal. São pessoas reais e ativas; o que não bate é o endereço.
A explicação mais provável — e o que não conseguimos confirmar
Pacaraima abriga o principal centro de recepção de migrantes venezuelanos no Brasil. A hipótese mais direta para o número é que pessoas que entram pela fronteira tiram documento e abrem conta ali, com endereço de Pacaraima, e depois seguem para outras cidades do país. Como o cadastro bancário raramente é atualizado quando alguém se muda, o município vai acumulando esses registros indefinidamente.
O desenho dos dados é compatível com essa leitura: crescimento contínuo em vez de salto, nenhum sinal de queda, e um volume por pessoa igual ao de qualquer outro lugar.
Mas isso é uma hipótese, não um dado. O DATA OPEN BANK não obteve confirmação do Banco Central, de instituições financeiras ou dos órgãos responsáveis pelo acolhimento de migrantes. Os dados abertos do PIX não informam a nacionalidade nem o endereço real de ninguém — mostram apenas o município de cadastro. Qualquer afirmação além disso precisa de apuração própria.
O levantamento foi feito pelo DATA OPEN BANK a partir dos dados abertos do Banco Central e do IBGE. Roraima tem 15 municípios, todos disponíveis no relatório acima.
Boa Vista, mês a mês
A capital também aparece acima de 100%: 420.483 pessoas para 413.486 moradores, ou 101,7%. Aqui o motivo é outro e mais simples — Roraima é o estado que mais cresceu em população nos últimos anos, e o Censo de referência é de 2022.
A curva da capital é a mesma de todo o país, só que mais acelerada: 20.030 pessoas no primeiro mês do PIX, 149.256 em junho de 2021, 262.004 no fim de 2022, 355.588 em 2024 e 420.483 agora. Vinte vezes mais em menos de seis anos.
O outro lado do estado
Fora de Pacaraima e da capital, nenhum município de Roraima chega a 60%. Os menores índices do estado são Uiramutã (22%), Amajari (31,3%), Alto Alegre (34,4%), Iracema (39,1%) e Normandia (39,2%).
Os 22% de Uiramutã são o menor índice de todos os municípios que a série já analisou. São 3.027 pessoas de 13.751 moradores.
O que esse caso ensina sobre o método
No país inteiro, apenas 5 dos 5.570 municípios aparecem acima de 100%, e Roraima concentra dois deles. Em todos os outros estados o indicador se comporta bem.
Ainda assim, o caso serve de alerta para ler qualquer número deste tipo: o município é o do cadastro bancário, não o da moradia, e a população de referência é de 2022. Onde essas duas coisas se descolam muito — cidades de fronteira, de veraneio ou de crescimento rápido —, o percentual deixa de medir adoção e passa a medir outra coisa.